Doutor, Doutora, olhe a sua agenda desta semana. Entre os nomes que estão ali, existe pelo menos um paciente que para de respirar várias vezes por noite. Ele vai sentar na sua cadeira, abrir a boca, conversar com você por quarenta minutos e ir embora sem que ninguém toque no assunto.
Ele não vai falar, porque ninguém perguntou.
Eu demorei anos para perceber isso na minha própria clínica. Hoje, na rede SilentSleep, atendo exclusivamente esse paciente. E a pergunta que mais me fazem os colegas é sempre a mesma: “Marina, onde eu encontro o paciente do sono?”. A resposta é desconcertante de tão simples. Ele já está com você.
Ele aparece a cada seis meses e fala de tudo, menos do ronco
Pense no paciente que volta para a manutenção. Ele comenta a sensibilidade no pré-molar, pergunta sobre clareamento, quer saber se a gengiva está melhor. A consulta flui bem. Ele confia em você.
O ronco fica de fora da conversa por dois motivos. O primeiro é que ele não associa o sono ao dentista. O segundo é que, na cabeça dele, roncar é só um incômodo para quem dorme ao lado. Ninguém nunca disse a ele que aquilo pode ser sinal de algo mais sério.
E é aqui que eu peço a sua atenção: ronco é frequente, e frequente nunca foi sinônimo de saudável.
O que acontece com esse paciente durante a noite
Quando ele adormece, a musculatura da via aérea relaxa. A língua e os tecidos moles da orofaringe caem para trás e estreitam a passagem do ar. Em muitos casos, ela fecha.
A partir daí, a sequência se repete:
- O ar para de entrar e a oxigenação do sangue cai.
- O coração acelera para compensar.
- O cérebro detecta o perigo e provoca um microdespertar para o corpo voltar a respirar.
- O paciente nem percebe que acordou, e o ciclo recomeça minutos depois.
Isso acontece várias vezes por hora, todas as noites. É a apneia obstrutiva do sono.
E ela está longe de ser rara. Um levantamento da Unifesp com moradores da cidade de São Paulo encontrou apneia obstrutiva em cerca de um terço dos adultos avaliados. Faça a conta com a sua base de pacientes ativos.
O preço que a apneia cobra ao longo dos anos
Uma noite mal dormida passa. Anos de noites interrompidas deixam marcas no corpo inteiro:
- Pressão alta, muitas vezes difícil de controlar mesmo com medicação.
- Maior risco de infarto e de AVC.
- Cansaço que não passa, sonolência durante o dia e queda de concentração, inclusive ao volante.
- Impacto no casal, com o parceiro acordando a noite toda e, em muitos casos, os dois dormindo em quartos separados.
Esse último ponto costuma ser o que mais pesa na conversa com o paciente. Ele pode não se preocupar com a própria pressão, mas sente quando o casamento passa a acontecer em dois quartos.
Quem olha para essa boca todos os dias?
O cardiologista vê o paciente uma ou duas vezes por ano e mede a pressão. O médico do sono só entra em cena quando alguém desconfia do problema e faz o encaminhamento.
Quem olha de perto, com luz e espelho, para a língua, o palato, as amígdalas, a mandíbula e a oclusão desse paciente é o cirurgião-dentista. E faz isso com regularidade, consulta após consulta.
Na prática, a cadeira odontológica é um dos lugares mais estratégicos da saúde para identificar quem precisa de investigação do sono.
Alguns sinais que você já vê e talvez ainda não conecte ao sono:
- Língua volumosa ou com marcas dos dentes nas bordas (língua festonada).
- Palato mole longo e úvula volumosa, com pouca visibilidade da orofaringe.
- Mandíbula retruída ou perfil convexo.
- Desgaste dental por bruxismo.
- Respiração bucal e boca seca ao acordar, relatadas pelo paciente.
A pergunta que falta na sua anamnese
Tudo isso começa com quatro palavras: “Como você tem dormido?”
Essa pergunta abre a porta. A partir dela, você pode complementar com:
- Alguém já comentou que você ronca?
- Você acorda cansado, mesmo depois de dormir a noite toda?
- Já disseram que você para de respirar enquanto dorme?
- Você sente sono durante o dia, dirigindo ou em reuniões?
Se as respostas acenderem um alerta, o próximo passo é encaminhar para o médico do sono, que vai solicitar a polissonografia e fechar o diagnóstico. Com o diagnóstico em mãos, o cirurgião-dentista habilitado tem um papel central no tratamento com aparelho intraoral de avanço mandibular, sempre em parceria com a equipe médica.
Uma pergunta na anamnese, e a sua cadeira nunca mais é a mesma. Você deixa de tratar só dentes e passa a cuidar da saúde do paciente de forma muito mais ampla, com um serviço de alto valor que pouquíssimos colegas oferecem.
Um presente para você começar amanhã
Para facilitar o primeiro passo, preparei um Questionário de Triagem do Ronco e Apneia para você usar no consultório. Ele traz:
- Questionário para o paciente responder na sala de espera.
- Checklist dos sinais que você observa na cadeira.
- Conduta por nível de risco.
- Roteiro de conversa para abordar o tema sem assustar o paciente.
- Modelo de carta de encaminhamento para o médico do sono.
Se você chegou aqui pelo Instagram, também pode comentar TRIAGEM no post do @powerdoctor_brasil que eu te envio o link no direct.
E se você quer ir além da triagem e aprender o diagnóstico, o protocolo e o tratamento com aparelho intraoral, conheça a Formação Ronco e Apneia do Sono e o livro Ronco e Apneia, onde eu reúno o método que aplico na SilentSleep.
O paciente do sono já está sentado na sua cadeira. Na sua próxima consulta, você vai perguntar como ele tem dormido?
Dra. Marina Lara, cirurgiã-dentista, mestre em Ortodontia e Ortopedia Facial pela PUCRS e fundadora da rede SilentSleep e do PowerDoctor.