Resposta rápida: a apneia obstrutiva do sono atinge 32,8% dos adultos de São Paulo, segundo o estudo EPISONO, e a maioria nunca recebeu diagnóstico. Quem tem apneia costuma pegar no sono rápido e acreditar que dorme bem. O cirurgião-dentista consegue levantar a suspeita no exame clínico, encaminhar para polissonografia com o médico do sono e tratar o ronco e muitos casos de apneia com aparelho intraoral, em acompanhamento conjunto.
No domingo, 18 de outubro de 2026, o Fantástico dedicou uma reportagem ao sono dos brasileiros. O dado de abertura foi forte: 1 em cada 3 adultos nas capitais têm sintomas de insônia.
Milhões de pessoas passaram a noite pensando no próprio sono. Nesta semana, parte delas vai sentar na sua cadeira com essa dúvida na cabeça.
A reportagem cumpriu um papel importante, mas mostrou só metade do problema. A outra metade ronca, para de respirar durante a noite, acorda exausta e quase nunca desconfia que tem uma doença. Esse paciente, Doutor, Doutora, provavelmente já passou pelo seu consultório esta semana.
O que a reportagem do Fantástico mostrou sobre insônia
Segundo a reportagem, 1 em cada 3 adultos nas capitais brasileiras têm sintomas de insônia. E dormir mal com frequência aumenta o risco de AVC, problemas cardíacos e demência.
A explicação passa pelo que acontece no sono profundo. É nessa fase que o cérebro faz uma espécie de faxina, eliminando resíduos metabólicos acumulados durante o dia, mecanismo descrito pela ciência como sistema glinfático. Quando o sono é curto ou fragmentado, essa limpeza fica incompleta.
Toda a conversa girou em torno da insônia: a demora para adormecer, os despertares de madrugada, a mente que não desliga. Ficou de fora o distúrbio que mais interrompe essa faxina sem que a pessoa perceba.
Insônia ou apneia do sono? Como diferenciar
Os dois pacientes acordam cansados, mas só o primeiro costuma perceber que tem um problema.
| Característica | Insônia | Apneia obstrutiva do sono |
|---|---|---|
| Início do sono | Demora para pegar no sono | Pega no sono rápido |
| Durante a noite | Acorda de madrugada e não volta a dormir | Dorme a noite toda, com microdespertares que não percebe |
| Sinal mais típico | Mente acelerada na cama | Ronco e pausas na respiração, geralmente notados por quem dorme ao lado |
| Ao acordar | Cansaço | Exaustão, dor de cabeça e boca seca |
| Percepção do problema | Costuma perceber | Costuma jurar que dorme bem |
Por isso o paciente com apneia raramente procura ajuda por conta própria. Muitas vezes, quem traz a queixa é o parceiro incomodado com o ronco.
As duas condições também podem coexistir no mesmo paciente, quadro que a literatura chama de COMISA (insônia comórbida à apneia). Mais um motivo para investigar em vez de presumir.
Apneia do sono no Brasil: o outro um terço
32,8% dos adultos de São Paulo têm apneia obstrutiva do sono. O dado vem do estudo EPISONO (Tufik et al., Sleep Medicine, 2010), que avaliou com polissonografia uma amostra representativa de 1.042 adultos de 20 a 80 anos da cidade.
- É o mesmo um terço que a reportagem atribuiu à insônia
- A maioria dessas pessoas nunca recebeu diagnóstico
- Muitas chegam ao consultório odontológico achando que só roncam
Na família, o ronco costuma virar piada. Na clínica, ele é frequentemente o primeiro sinal visível de uma via aérea que se fecha várias vezes por noite.
O que acontece no corpo de quem tem apneia durante o sono
A apneia obstrutiva do sono é o fechamento repetido, parcial ou total, da via aérea superior enquanto a pessoa dorme. A gravidade é medida pelo índice de apneia e hipopneia (IAH), o número de eventos por hora: leve de 5 a 15, moderada de 15 a 30 e grave acima de 30.
Em quem tem apneia, este ciclo se repete várias vezes por hora:
- A via aérea se fecha durante o sono
- O oxigênio no sangue cai
- O cérebro desperta por segundos para voltar a respirar
- O ronco volta e o sono profundo é interrompido
O resultado é a faxina do cérebro, explicada na reportagem, feita pela metade. Somam-se a isso as quedas repetidas de oxigênio e os picos de adrenalina a cada despertar. É assim que os riscos de AVC, infarto e demência aparecem em quem jura que dorme bem.
Sinais de apneia que o cirurgião-dentista vê antes de qualquer exame
O cirurgião-dentista examina a boca do paciente com regularidade, muitas vezes mais do que qualquer outro profissional de saúde. Alguns achados de rotina levantam a suspeita de apneia:
- Desgaste por apertamento ou bruxismo: o bruxismo do sono pode acompanhar os microdespertares respiratórios
- Língua com marcas dos dentes nas bordas: sugere uma língua volumosa para o espaço disponível
- Palato estreito e profundo: associado a menor espaço na via aérea e à respiração oral
- Boca seca e dor de cabeça ao acordar: reflexo da respiração pela boca e das quedas de oxigênio à noite
- Cansaço mesmo depois de 8 horas na cama: sono longo que não repara
Retrognatia, amígdalas aumentadas e pescoço largo reforçam a suspeita. Nenhum desses sinais fecha diagnóstico sozinho. Juntos, eles justificam as perguntas certas na anamnese.
O papel do cirurgião-dentista no tratamento do ronco e da apneia
O cirurgião-dentista participa do cuidado do paciente com apneia do início ao fim, em parceria com o médico do sono:
- Triagem no consultório: questionário validado e sinais clínicos levantam a suspeita
- Diagnóstico com o médico do sono: a polissonografia confirma e classifica a apneia
- Aparelho intraoral: confeccionado e ajustado pelo cirurgião-dentista
- Acompanhamento em conjunto: médico e cirurgião-dentista seguem o caso juntos
O aparelho intraoral de avanço mandibular posiciona a mandíbula e a língua levemente para a frente durante o sono, mantendo a via aérea aberta. A diretriz conjunta da American Academy of Sleep Medicine e da American Academy of Dental Sleep Medicine (2015) recomenda o aparelho para o ronco primário em adultos e para adultos com apneia que não toleram o CPAP ou preferem uma alternativa.
Na prática, é um tratamento com respaldo científico para o ronco e para muitos casos de apneia, especialmente os leves e moderados.
O que 11 anos tratando ronco e apneia me ensinaram
“Em 11 anos tratando ronco e apneia, vi o paciente chegar indicado por médico, entender que estava cuidando da saúde do corpo inteiro e parar de comparar preço. É a Odontologia ocupando um espaço que já é dela.”
Dra. Marina Lara
O paciente que chega por indicação médica já entende a gravidade do que tem. Ele enxerga o aparelho como parte de um tratamento de saúde, e a conversa sobre valor muda de patamar.
Para o consultório, isso significa uma relação de encaminhamento contínua com médicos do sono, otorrinos e cardiologistas. Para o paciente, significa finalmente tratar a causa do cansaço que ele carregava há anos.
Perguntas frequentes sobre ronco, apneia e Odontologia
O dentista pode diagnosticar apneia do sono?
O diagnóstico é médico e feito pela polissonografia. O cirurgião-dentista faz a triagem, levanta a suspeita, encaminha ao médico do sono e, com o diagnóstico em mãos, confecciona e acompanha o aparelho intraoral.
Qual a diferença entre ronco e apneia?
O ronco é o som da vibração dos tecidos da garganta quando o ar passa por uma via aérea estreitada. Na apneia, a via aérea se fecha a ponto de interromper a respiração e derrubar o oxigênio no sangue. Quase todo paciente com apneia ronca, mas nem todo ronco indica apneia.
Aparelho intraoral funciona para apneia?
Sim. A diretriz da AASM e da AADSM (2015) recomenda o aparelho de avanço mandibular para ronco primário e para adultos com apneia que não toleram o CPAP ou preferem outra opção. A indicação depende do diagnóstico e da gravidade.
Quantos brasileiros têm apneia do sono?
O estudo EPISONO encontrou apneia obstrutiva em 32,8% dos adultos de São Paulo, e a maioria nunca foi diagnosticada.
Quais sinais na boca podem indicar apneia?
Desgaste por bruxismo ou apertamento, língua com marcas dos dentes nas bordas, palato estreito e profundo, boca seca ao acordar e retrognatia.
Insônia e apneia podem acontecer juntas?
Sim. O quadro é chamado de COMISA e exige avaliação médica para definir o tratamento de cada condição.
Comece a identificar esses pacientes ainda nesta semana
O paciente que se reconheceu na reportagem já está na sua agenda. O cirurgião-dentista que souber fazer as perguntas certas vira a referência dele.
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Sobre a autora
Dra. Marina Lara Soria é cirurgiã-dentista ortodontista (CRO-RS 12676), mestre em Ortodontia e Ortopedia Facial pela PUCRS, com mais de 25 anos de prática clínica e 11 anos dedicados ao tratamento do ronco e da apneia com aparelhos intraorais. Tem 18 artigos científicos publicados e é fundadora da SilentSleep e da PowerDoctor.
Referências
- Fantástico, TV Globo. Reportagem sobre insônia exibida em 18/10/2026.
- Tufik S, Santos-Silva R, Taddei JA, Bittencourt LRA. Obstructive sleep apnea syndrome in the Sao Paulo Epidemiologic Sleep Study. Sleep Medicine, 2010;11(5):441-446.
- Ramar K, Dort LC, Katz SG, et al. Clinical Practice Guideline for the Treatment of Obstructive Sleep Apnea and Snoring with Oral Appliance Therapy: An Update for 2015. Journal of Clinical Sleep Medicine, 2015;11(7):773-827.
- Xie L, Kang H, Xu Q, et al. Sleep drives metabolite clearance from the adult brain. Science, 2013;342(6156):373-377.