Por Dra. Marina Lara
Em 11 anos tratando ronco e apneia, acompanhei colegas excelentes, com mãos precisas, diagnósticos cuidadosos e agendas cheias, deixarem esse paciente ir embora. Ele estava ali, deitado na cadeira, com a boca aberta diante de quem tinha todas as condições de ajudá-lo. E saía do consultório sem que ninguém tocasse no assunto.
Na maioria das vezes, o que travava o colega era uma crença repetida por anos sem que ninguém a colocasse à prova. Ao longo da minha trajetória, encontrei sempre as mesmas cinco:
- “Ronco é assunto do médico.”
- “Preciso de equipamento caro para começar.”
- “Meus pacientes não roncam.”
- “Paciente não paga por isso fora do convênio.”
- “O médico não vai me encaminhar paciente.”
Também vi esse cenário mudar, e mudar rápido, quando esses colegas enxergaram o caminho completo, da triagem no consultório ao acompanhamento conjunto com o médico do sono. Vamos olhar cada um desses mitos com calma, Doutor e Doutora.
Mito 1: “Ronco é assunto só de médico”
Essa crença nasce de uma meia-verdade, e por isso ela é tão resistente.
O diagnóstico da apneia obstrutiva do sono é, de fato, responsabilidade do médico do sono, a partir da polissonografia. Esse ponto é inegociável e é justamente o que dá segurança ao tratamento.
O que costuma ficar fora da conversa é a etapa seguinte. O aparelho intraoral, uma das principais opções terapêuticas para o ronco e para muitos casos de apneia leve a moderada, é confeccionado, ajustado e acompanhado pelo cirurgião-dentista. Nenhum outro profissional faz esse trabalho.
Na prática, a Odontologia do Sono funciona como uma parceria com papéis muito bem definidos:
- O médico do sono investiga, diagnostica e indica o tratamento;
- O cirurgião-dentista avalia a viabilidade odontológica, confecciona o aparelho, faz a titulação e acompanha o paciente ao longo do tempo.
Para esse paciente, o tratamento depende da Odontologia. Quando o colega se afasta do tema por achar que “é coisa de médico”, ele deixa um vazio exatamente na etapa que só ele pode ocupar.
Mito 2: “Preciso de equipamento caro para começar”
Quando um colega me diz que ainda não entrou na Odontologia do Sono porque precisaria investir em equipamentos, eu peço que ele olhe para o que já tem no consultório. O caminho tem quatro etapas:
- Anamnese: você já faz em toda primeira consulta.
- Exame clínico: os sinais estão na boca que você examina todos os dias, como língua volumosa, palato ogival, desgastes dentários, retrognatismo e a própria anatomia das vias aéreas superiores.
- Polissonografia: fica com o médico do sono.
- Aparelho intraoral: confeccionado e ajustado por você.
Repare que a etapa que exige equipamento específico, o exame do sono, está nas mãos do médico. As outras três já fazem parte da sua rotina clínica.
O que muda é a pergunta que você faz e o protocolo que segue a partir dela. Conhecimento estruturado e um fluxo claro valem mais, no início, do que qualquer aparelho novo na sala.
Mito 3: “Meus pacientes não roncam”
Eles roncam. Só que ninguém pergunta.
O paciente raramente traz o ronco como queixa ao cirurgião-dentista, porque não associa uma coisa à outra. Ele chega para a limpeza, para a restauração, para o alinhador. O sono fica de fora da consulta, e o problema segue invisível.
Os números mostram o tamanho dessa invisibilidade. O EPISONO, estudo epidemiológico conduzido na cidade de São Paulo, encontrou apneia obstrutiva do sono em cerca de 1 a cada 3 adultos. Faça a conta com a sua agenda da semana: uma parcela relevante dos pacientes que passaram pela sua cadeira provavelmente ronca, acorda cansada e nunca ouviu de um profissional de saúde que isso tem tratamento.
Na minha clínica, bastou incluir uma pergunta simples na anamnese, “Como você dorme?”, para esse paciente aparecer na agenda. Ele sempre esteve lá. Faltava alguém abrir a porta.
Mito 4: “Paciente não paga por isso fora do convênio”
Esse é o mito com raízes mais profundas, porque ele molda a forma como o colega enxerga o próprio trabalho.
Quem vive de convênio aprende a precificar pelo que a tabela paga. Com o tempo, esse raciocínio passa a definir o que parece “vendável” e o que parece impossível de cobrar. E é ele que trava a Odontologia do Sono antes mesmo de começar.
Pense em quem está do outro lado: o paciente que ronca há anos, que dorme em quarto separado, que acorda cansado todos os dias, que cochila no trânsito e que já ouviu inúmeras reclamações em casa. Ele carrega esse problema há muito tempo e enxerga valor imenso em voltar a dormir bem.
A percepção de valor desse paciente segue a lógica da qualidade de vida, do casamento, da saúde e da segurança. A tabela do convênio fica muito longe dessa conta.
Paciente que volta a dividir o quarto com quem ama não pede desconto.
Mito 5: “O médico não vai me encaminhar paciente”
Muitos colegas imaginam o médico do sono como uma porta fechada. A minha experiência mostra o oposto: o médico do sono precisa de um cirurgião-dentista de confiança para os casos de aparelho intraoral. Ele tem pacientes que não se adaptam ao CPAP, pacientes com ronco primário, pacientes com apneia leve, e precisa saber para quem encaminhar com segurança.
A relação se constrói em quatro movimentos:
- Triagem no seu consultório: você identifica o paciente com suspeita de distúrbio respiratório do sono.
- Encaminhamento com critério: você envia ao médico um paciente bem avaliado, com informações clínicas organizadas.
- Diagnóstico e aparelho intraoral: o médico confirma o quadro, indica o tratamento, e você executa e acompanha.
- O médico passa a indicar você: ao ver resultado e seriedade no processo, ele começa a encaminhar os pacientes dele para o seu consultório.
Foi assim que médicos passaram a me indicar. A parceria começa quando o cirurgião-dentista mostra que domina o protocolo e fala a mesma língua do médico do sono.
Uma área inteira à espera de quem decidir ocupá-la
“Quebrar esses cinco mitos foi o que me permitiu transformar a Odontologia do Sono em uma rede de clínicas, a SilentSleep. Uma área inteira da Odontologia segue vazia enquanto a maioria dos colegas acredita neles.”
— Dra. Marina Lara
Cada um desses mitos, isoladamente, parece razoável. Juntos, eles explicam por que tantos pacientes seguem roncando, cansados e sem tratamento, enquanto o profissional capaz de ajudá-los está a poucos centímetros, do outro lado da cadeira.
A boa notícia é que nenhum deles resiste quando o caminho fica claro.
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Desperte para a Odontologia do Sono · 10, 11, 12 e 16 de novembro, às 20h
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